sábado, 21 de agosto de 2010

Para sua sorte, vote em D. Quixote

Sorte...
Que o Brasil(eiro) tenha muita mesmo, afinal, a grande maioria realmente só parece querer contar com ela.
Não fazem por onde. Não se importam com nada. Reclamam o dinheiro roubado (mas pouco importa quem o roubou). Reclamam pela saúde negligenciada, negada, inexistente para muitos.
Na escola, onde a educação não é lá grandes coisas, não se importam em procurar aprender qualquer coisa que possa ter alguma importância para sua vida.
 Dizem faltar investimento, realmente falta, não só destes políticos sem ética ou moral, mas falta também algo que acho que pode ser chamado de auto-investimento. Falta as pessoas diminuirem um pouco suas reclamações, a falácia e começar a agir um pouco. Não só agir para consigo mesmo, mas agir diretamente na tentativa de mudar isto que tanto nos incomoda.

Fernando Anitelli (o teatro mágico) disse um dia:
Não acomodar com o que incomoda.

Eleições no Brasil (para muitos) é como uma loteria (não me surpreenderia se fosse convidado para apostar nalgum bolão presidencial), onde as pessoas, ou pelo menos boa parte delas, não querem realmente fazer parte do sorteio, mas sim apostar e esperar que o número  (aleatoriamente) escolhido seja cegamente retirado da caixinha mágica do destino.

“Pare Dom Quixote, conte com a sorte”

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O garoto quixote e a menina dos olhos de estrela.


Alonso Quijano não conseguia dormir, tivera o que talvez fosse um dos melhores dias de sua vida. Deitado na cama, com um bobo sorriso, lembra-se claramente do momento em que viu pela primeira vez os olhos verdes (ou seriam azuis?) de Dulcinéia.

“Ah, doce Dulcineia”. Suave voz a cantar uma bela canção, que falava sobre uma linda bailarina e um singular soldadinho de chumbo. “Ah, Dulcinéia”, suspirava Quijano constantemente, ao se lembrar de cada curva daquele belo rosto de boneca de pano, que ele mapeara usando as mãos, marcando na memória cada traço de tão jovial face. “Ah, doce Dulcinéia”.

Quijano, encantado com singular dama, chamou-a para dançar. Os dois, formando uma linda ciranda de sorrisos e batimentos cardíacos, apenas conseguiam se olhar, sem nada falar, só olhar (olhos nos olhos). Era como se tudo o que pudesse ser dito não chegasse nem perto do que era transmitido (olhos nos olhos). Como se não houvesse mais um mundo ao redor, apenas os dois, a linda contralto e o maravilhado tenor, num carrossel. A se olhar. A girar. A se beijar. Olhos nos olhos. A se apaixonar. 
Encontrei a IMG aqui: http://www.marciomelo.com/1999/1999.htm

terça-feira, 27 de julho de 2010





Luiz acabara de escovar os dentes, bebeu um copo d’água para tirar o gosto de creme dental da boca, e sentou-se cama. Depois de tudo o que havia passado naquele dia, não poderia simplesmente deitar e dormir; jamais conseguiria realizar tão difícil tarefa. Sua cabeça estava a mil com todos aqueles pensamentos.


Após 2 segundos de intensa repressão, quis ir para rua, sentar-se-ia, como sempre, no chão da esquina. Ali, olhou para o quase limpo céu, estrelado, luado.

Algo não saia de sua cabeça: lera recentemente, no livro “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse, algo sobre o suicídio; o quanto poderia ser um ato divino, cheio de autoconhecimento e até amor próprio e o quanto poderia ser cheio de covardia, abandono e egoísmo.

Decerto este ato poderia ser muito contrastante. Ele não concordava com as pessoas que se suicidavam, por mais que elas soubessem e quisessem. A vida era vista por ele como um caminho, onde o abandono do mesmo significaria fraqueza; ele não se via como uma pessoa fraca, porém, poucas vezes na vida sentiu real vontade de viver. Nunca conseguira responder sua pergunta mais angustiante, dentre as tantas outras que vivia se fazendo em momentos como este: “What the hell am I doing here?”

Observou a lua e viu que ainda estava cheia, assim como dias antes, quando voltava completamente realizado, enamorado, feliz para a casa, com a lua a lhe guiar. Ele via na lua uma constante contradição de sentimentos. Via nela tamanha tristeza e ao mesmo tempo alegria imensa, um confronto intenso, cheio de prazeres e dores.

Percebia a solidão que a Lua podia sentir, prostrada lá em cima. Enquanto girava lentamente ao redor de um planeta, onde os habitantes, que tanto diziam amá-la, não tinham sequer amor próprio. A Lua observava as estrelas, distantes, conversarem entre si, e, nesta interminável festa, brindarem o prazer de ter luz própria, coisa que ela, a Lua, jamais poderia ter. Porém, estava sempre a sorrir para todos. E Luiz não entendia o porquê desta inabalável alegria. Talvez fossem os enamorados, que possivelmente ela observava, escondida, pela varanda dalgum bar; talvez fossem as nuvens, que insistiam em tentar compartilhar o espaço com ela no céu; ou, talvez, fosse o Sol, que sempre dividia sua graça com ela, emprestando um pouco de sua energia para que ela se aquecesse e iluminasse nas noites frias.

Decerto o Sol devia ser um grande amigo (seriam eles apenas amigos?). Graças a ele a Lua podia brilhar e encantar pessoas como o Luiz, que em noites frias sentava-se no chão da esquina a se lembrar de bons e maus momentos de sua vida, a pensar coisas boas e coisas ruins; ele, que tanto amava a vida e aplaudia tudo que era criado pela mão da natureza, esta inspiradora artista, que, com sua agulha mágica, borda toda a essência do que nela É.